domingo, setembro 10, 2006

Pobre criança pós-moderna...




Alguém a fitou com interrogação. Não vacilou. Um impulso como este poderia ter assustado a qualquer outro, entretanto ela não era qualquer outro.

_ Diga-me, o que desejas aqui?

_ Já não tenho desejos plausíveis..._ os olhos cerrados, a visão fulgindo em escuridão e a mente aturdida. Olhos capazes de traí-la em nome da verdade. O caos em si, terrivelmente real e docemente surreal.

_ Então, como poderás viver?

_ Não sei viver. Você se atreveria a saber? Quem se atreve?

A fortaleza se prostrara ali, titubeante como, por instantes, ela acreditou não ser possível. O inquisidor, afim de não sei o que, partilhou segundos de introspecção... “quem poderia saber?”

Revelaram-se mais semelhantes que a imaginação poderia conceber. Na verdade, de uma perspectiva cósmica, todos são irreparavelmente iguais.

_ Busco redenção _ os olhos de caos acabaram de afirmar, suplicar, sussurrar. Devanearam:

_ Não sei... não sei... não sei... Qual foi meu crime? O que é castigo aqui? Pequei por não me adaptar aos outros. Aos padrões de comportamento. Sou uma forasteira. Em qualquer lugar desse lugar. O homem não deveria tentar ser feliz? Preciso de liberdade para tanto. Mas ser livre não significa vontade e ação própria.

_ E agora você nunca esteve tão presa! Nunca esteve tão longe do caminho...

_ Tentei me reencontrar. É claro que fui tola. Imaginar que esse dia ou aquele pudessem acalmar uma tempestade que persistiu meses enclausurada nos meus mais impensados atos, até nascer. Mesmo que esse dia já sejam três, mesmo que pareça não ter fim. Estou exausta. Parece mesmo ser o meu fim.

_ Sim! Que assim seja. É preciso arder em chamas para renascer. Pobre menina, qual uma fênix cega. Vá! Vá para longe. Aqui não terás o que nem quem procuras. Nem mesmo em quem procuras agora.

_ Eu sei, eu sei. Devo encontrar-me primeiro. Antes de tudo, devo esgotar minhas, já escassas, forças. Dormir. Acordar. Ressignificar meu ser.

_ Espero que seu novo ser possua uma casa. Um lugar de verdade.

_ Preciso de um café!!!

2 Comments:

Blogger Bárbara Gegenheimer said...

Fez-me lembrar-me de O Processo, do Kafka, aliás, meio kafkaniano seu texto, embora muitas vezes inseguro. Muito bom! E sabe que, realmente eu espero que faça valer os "conselhos" da tua própria e nova consciencia. De alguma forma, que faça valer, ressignificar, inovar, sempre Pardeira, Geanini, faiti!

9:47 AM  
Anonymous Anônimo said...

Bom saber que não sou só eu que estou precisando ressignificar esse caos que está a minha vida.

3:46 PM  

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